Divagações · Pipocando no Cinema

Superando obstáculos

Em 16 de janeiro de 2007 derramei lágrimas que considero terem sido as mais amargas de toda minha vida. Uma infância e adolescência inteiras consumindo produtos americanos não tinham me preparado para a rejeição de uma nação inteira. Ter aquele visto negado foi sem sombra de dúvidas um dos maiores traumas da minha vida. Dali em diante resolvi que iria viajar para países onde visto não fosse necessário e aproveitaria a vida de forma diferente, tentando esquecer essa imensa frustração.

Mas então, vi uma a uma, quase todas as minhas amigas irem para os Estados Unidos. Por mais feliz que eu tenha ficado por elas, aquilo me fazia uma pessoa amargurada a cada dia que passava. Após um tempo a cada menção de “tira um visto, Leila” eu me tornava mais e mais irascível nas respostas, até que finalmente parti para o deboche e adotei a postura “tenho cara de terrorista, deixa pra lá”.

Durante os anos que se seguiram à minha formação fiz algumas viagens, comecei em alguns empregos e havia deixado a ideia de trabalhar com cinema de lado. Aquele meu devaneio, iniciado na primeira vez em que assisti Titanic, podia ficar em stand by. Até que pensei: se não for agora, não vai ser nunca mais.

Acreditando ser melhor guardar as ideias para mim mesma, comecei a traçar um plano de como e onde estudaria. Voltei às aulas de inglês, prestei um novo teste de proficiência e finalmente decidi qual o caminho gostaria de seguir dentro da indústria cinematográfica. Arquitetei meu plano de uma forma diferente a tudo que já fiz em minha vida, sem sair contando aos quatro ventos o que estava fazendo. Se quebrasse a cara novamente, paciência, não teria uma multidão de conhecidos a me perguntar “tá fazendo o que no Brasil ainda?”. Aprendi da pior forma que o olho gordo alheio é poderoso.

Desde fevereiro venho lidando com documentos, taxas e e-mails para a New York Film Academy, mês passado finalmente recebo a mensagem de aprovação no Master of Fine Arts in Filmmaking. Um programa que consumirá dois anos da minha vida. E então, havia chegado a hora de superar aquele que era o grande obstáculo do auge dos meus 25 anos: conseguir um visto americano.

Pensei várias vezes em desistir, confesso. Foram semanas encontrando desculpas para não deixar o Brasil, desculpas para não abandonar meus amigos, desculpas para não sair – pasmem – de Joinville. Fui levando a coisa toda assim, meio que sem importância. E uma semana antes de viajar para São Paulo aproveitei meu feriado da única forma que sei: ficando doente.

Minha entrevista seria em uma sexta-feira e logo na segunda amanheci de cama, meus pais haviam viajado, eu não sabia fazer uma sopa e o chá que minha mãe sempre me dava quando gripada tinha que ser colhido pela vizinhança. Providenciei uma sopa de pacotinho no mercado da esquina, pedi à minha tia o tal do chá e fui dormir cedo, acordei no dia seguinte com a pior alergia da minha vida. Fui para o Pronto Atendimento e o médico plantonista me disse que era só uma garganta inflamada, mas como sou alérgica a anti-inflamatórios teria de me virar com a forma mais demorada de cura, e a alergia foi ignorada pelo excelente profissional da saúde.

Acredito que todo o estresse envolvido em torno do evento em si tenha me proporcionado reações inéditas. Na quarta embarquei para São Paulo com coceira pelo corpo todo e a garganta fechada. Na quinta, mal consegui almoçar um prato de salada antes de me encaminhar para o Centro de Atendimento ao Solicitante de Visto, onde, sob um sol maravilhoso, aguardei por vinte minutos em uma fila para tirar uma foto e minhas impressões digitais.

Mal consegui dormir naquela noite, só de imaginar as grades que separam o consulado americano da rua, tinha calafrios. Acordei antes do horário do despertador, me preparei meticulosamente, olhando várias vezes no espelho e me perguntando: “estou com cara de quem curte um trabalho ilegal?”. Convenhamos, não gosto de trabalhar nem no Brasil, como os queridos cônsules poderiam achar que eu iria querer ficar esfregando chão no país deles?

Devo ter perdido alguns quilos semana passada. Com apenas uma barrinha de cereal no estômago tomei um taxi em frente ao hotel, com uma senhora do Rio Grande do Sul que também se encaminhava ao destino.

Enquanto estava na fila observava o comportamento dos avaliadores: o cara que me negou o visto em 2007 estava lá, tentando se fazer entender para uma família asiática que não falava português ou muito menos inglês, duas senhoras simpáticas e um senhor que aparentava ser o sofredor de bullying no colégio. Obviamente fui destinada a ser entrevistada por aquele que parecia ser o mais amargo de todos.

Tentei parecer natural, enquanto por dentro ia morrendo aos poucos. Tudo começou com um “tudo bem?” com muito sotaque, se desenvolveu para um “por que você não está trabalhando na sua área?”, “o que você fez desde que se formou?”, “por que escolheu esse curso?”, “quem vai pagar?”, até que ele finalmente alcançou meu I-20 e percebeu que eu não estava solicitando um visto de dois meses para estudar inglês e sim um de dois anos para ficar por lá por muito tempo. Com um sorriso debochado, ele finalmente tirou os olhos da tela do computador, me analisou de cima abaixo e disse, com um sorriso amarelo: “do you speak english? Because you’ll need it”. Dali para frente desatei a falar como se não houvesse amanhã, tentando de todas as formas soar convincente. Aquela entrevista parecia estar durando uma eternidade. Até que ele ficou em silêncio, apenas preenchendo formulários em seu computador e me disse, por fim, sem nem ao menos me fitar, um “have a nice trip”, que eu mal ouvi, e jogou meu passaporte na caixa de vistos a serem emitidos. Fiquei um pouco desnorteada e indaguei como faria para recuperar meu passaporte, ao que ele me olhou, com cara de escárnio e me passou por entre o vidro a prova de balas um descritivo de entrega de passaportes.

No dia 7 de junho de 2013 finalmente atravessei as grades do Consulado Geral dos Estados Unidos segurando as lágrimas, que dessa vez, eram de alegria.

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5 comentários em “Superando obstáculos

  1. Show de bola Leila, vai que vai!!!
    O que é seu tá guardardo…

    Só a parte do aproveitando o feriado ficando doente tem um pouco de inverdade, já que a Srta inclusive praticou, com maestria e demonstrando muita saúde, a arte suave – Jiu Jitsu na madruga de sábado para domingo… rsrsrs…

Leiloe a sua ideia :D

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