Divagações · Pare e pense

O desabafo de uma amante – intelectualizada – do popularesco

Vivemos de aparências. É com esse lugar comum que inicio o meu texto sobre o popularesco mundo em que vivo. Mundo esse que parece ser um universo paralelo para os inúmeros “amigos” cultos que me cercam. Para as pessoas superiores, para alguns seres que se sentem como deuses do Olimpo por passarem suas horas vagas a ler livros de grandes pensadores do século dezenove/início do século vinte, ou até mesmo por que conseguem reconstruir toda a história mundial em uma conversa de bar e sabem perfeitamente todos os vieses que podem levar o mundo até a paz eterna. Amém.

Vivemos em uma democracia, certo? Errado! Vivemos a mercê da repressão de seres que se consideram superiores e exigem que sejamos todos cultos, filósofos e pensadores. Vivemos ameaçados pelos nossos próprios amigos que não perdem a oportunidade de chacotear aqueles que só querem um momento de distração.

Oras, qual o problema de chegar em casa, após um estafante dia de trabalho, onde meu intelecto foi utilizado em seu melhor potencial, e simplesmente me deleitar com um programa de auditório? Rir de uma série pastelão? Ler um livro escrito por uma cantora pop descoberta pela Disney? Seria eu menos culta que alguém fanático por temáticas medievais? Terei algum problema de argumentação diante de um debate com alguém que tem orgulho de dizer que “não tem televisão em casa”?

Para quem não sabe sou jornalista formada, pós-graduada, domino três idiomas, nunca fiquei em recuperação na minha vida, notas baixas não fizeram parte do meu currículo escolar, passei no vestibular em oitavo lugar na faculdade em que cursei, tendo ficado em segundo em uma faculdade de minha cidade, concluí a graduação com louvor e sou, sim, uma pessoa intelectualizada.

E mais: sou inesquecível. Talvez seja por eu bradar aos quatro ventos que AMO, sim AMO, Silvio Santos, consumo novelas mexicanas, leio livros de Sidney Sheldon, Meg Cabot, Hilary Duff e qualquer modinha teen do momento, gosto de Casos de Família, Programa do Ratinho, danço ao som de Tchu Tcha, canto Camaro Amarelo e sinceramente? Não estou nem aí para o seu preconceito idiota. Eu não preciso estar vinte e quatro horas por dia utilizando meu intelecto para provar para a sociedade que sou um ser humano evoluído, basta que, no fundo do meu ser, eu saiba o que eu estou fazendo por mim mesma. Não tenho vergonha de assumir minhas preferências, não tenho vergonha de me abster de discussões, mas não por falta de argumentos, mas por acreditar que discutir um assunto “polêmico” do momento não vá fazer a diferença nenhuma no contexto de uma mesa de bar, o que pode ocasionar, no máximo, será um racha entre amigos.

Acredito, sim, que o seu preconceito contra o sertanejo universitário, seus pensamentos mesquinhos a respeito dos frequentadores da Wood’s, e o seu olhar de repúdio se iguala ao de homofóbicos e racistas. Você é preconceituoso, mas acima de tudo, por trás desse seu discurso está só mais um alguém que vai com a multidão. Sim, se você olhar para o lado, você faz parte de uma massa enorme de pessoas que buscam na afirmação intelectual uma superioridade repugnante, e da mesma forma que você observa as hordas de jovens se divertindo em uma balada sertaneja como “descerebrados” eles avaliam o seu grupo de intelectuais como “pessoas entediantes”.

O mundo seria muito melhor se todos conseguissem simplesmente conviver com as diferenças, sejam elas quais forem. Você não precisa exprimir o seu ponto de vista a todo o momento, esfregar na cara dos seus amigos que você é superior, que o seu gosto é melhor, que você é o suprassumo do intelecto brasileiro. Você só precisa ser feliz e me deixar ser feliz do jeito que eu sou, vendendo Jequiti, assistindo ao Programa Silvio Santos, cantando a música de abertura da Usurpadora, lendo meus romances água com açúcar e dançando meu “Ai se eu te pego”. Se eu te incomodo, me desculpa, mas você me incomoda muito mais.

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5 comentários em “O desabafo de uma amante – intelectualizada – do popularesco

  1. Concordo plenamente com tudo que escreveu e tenho orgulho de você, por ser linda, inteligente, transparente, única, e, por expressar, exatamente, todos os seus sentimentos e não ter medo de deixar suas marcas e revelar ao mundo quem realmente é.

  2. “Eu não preciso estar vinte e quatro horas por dia utilizando meu intelecto para provar para a sociedade que sou um ser humano evoluído, basta que, no fundo do meu ser, eu saiba o que eu estou fazendo por mim mesma.”

    Por quê, então, um post tão grande para mostrar isso?
    ;)

    1. Esse post foi feito para rebater inúmeros comentários ignorantes que venho aguentando no último ano. Ou seja, durante esse período não fiz absolutamente nada para rebater todas as maldosas insinuações que por vezes me tiraram do sério, agora venho em MINHA defesa, ou seja, o fiz por mim mesma. Para ME defender da ignorância alheia que, sim, machuca e ofende quem não merece.
      E esta frase se refere também aos queridos que tem necessidade constante de expressar a intelectualidade e menosprezar os demais, eles deveriam manter para si muitas coisas. Mas pegar uma frase e tirar do contexto do texto é fácil, né? Leia ele como um todo e talvez você entenderá, queridinha.

Leiloe a sua ideia :D

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