Pare e pense

Imprudência a brasileira

Agora pela manhã tomei conhecimento de um acidente de trânsito, em uma rodovia federal que corta a cidade de Joinville, que me fez pensar. Alias, não me fez apenas pensar e sim proferir algumas belas palavras de indignação, enchendo os ouvidos da minha colega de trabalho que disse: “escreva isso para o seu blog”, pois é, lá vou eu reclamar novamente.

Por volta das 8h a cidade de Joinville estava tomada por uma neblina densa, era impossível enxergar mais de 20 metros a frente do seu carro – o que fez meu coração bater mais forte na hora de entrar em certas ruas principais. E foi exatamente nesse horário que um i30 saiu da pista onde trafegava na BR101, passou por cima de um canteiro, onde não há contenção, e colidiu com um carro que trafegava na pista contrária, matando imediatamente a condutora do veículo que trafegava corretamente. Até o momento, o que aconteceu não passa de especulação, mas com aquele cenário que presenciei às 8h e conhecendo o trecho onde o acidente ocorreu consigo imaginar o condutor do carro importado não fazendo a curva.

Não vou aqui ser hipócrita e fazer um discurso sobre os limites de velocidades em rodovias, já levei algumas multas por excesso de velocidade. Mas depois de passar quatro anos subindo e descendo a serra de Curitiba semanalmente eu sei quais perigos uma neblina espessa, uma garoa fina e uma chuva torrencial reservam. Coisas que todos deveriam saber.

É engraçado, muito se fala a respeito da educação no Brasil, sobre analfabetismo funcional, discutem a questão de posse de armas, e as discussões sobre a imprudência no trânsito se limitam apenas a dizer “se dirigir, não beba”. Claro, é sempre muito importante ressaltar aos bêbados valentões que o reflexo necessário para dirigir que eles possuem ficou no fundo do copo onde eles afogaram as mágoas. Mas um carro pode ser uma arma tão potente quanto o arsenal encontrado no apartamento do esquartejado da Yoki. E a dificuldade de leitura de um analfabeto funcional é a mesma enfrentada pelos milionários com seus carros importados, blindados e com 6 air-bags, que acham que podem dirigir a 190 km/h dentro de uma capital sem fazer mal a ninguém. No Brasil é assim, você rouba uma galinha é preso, mas se você é filho de político e mata alguém com o seu carro a 190km/h, você aguarda seu julgamento em liberdade trafegando pelas ruas da cidade como se nada tivesse acontecido. No Brasil, também, se você for filho de bilionário ninguém vai se importar em tirar sua habilitação depois que você atingir os 21 pontos, ou ainda, se acumular mais de 50 multas. Triste.

Os debates mais acalorados ficam ainda por conta da Copa do Mundo, como os aeroportos vão receber todos os voos? Acho uma discussão válida, mas vamos falar também sobre as rodovias? O que os turistas vão achar de cair em valas, buracos e ter que disputar espaço com os caminhões de carga? Alias, é uma pena que à época da construção de vias o Brasil tenha optado por construir rodovias e colocar caminhões na rua ao invés de planejar ferrovias e fazer utilização de trens. Mas é aquela coisa, né? O que é mais barato é sempre “melhor”.

Mas voltando a imprudência. Ah, a imprudência! Fico feliz que os carros comercializados não sejam tão potentes quanto poderiam ser, mas me deixa desgostosa a baixa do IPI, que pode ser considerado quase como liberar as armas de fogo para toda e qualquer pessoa.

O pensamento “eu dirijo muito bem” habita a mente de sóbrios, bêbados, adolescentes sem carteira, senhoras, da mesma forma que o “vou correr por que estou sozinho” engana a tantas pessoas. Já escutei isso da boca de familiares, e esse pensamento me dá arrepios, sabe por quê? Por que você, que tem aquele carrão com air-bags, provavelmente vai atingir alguém com um carro popular, e daí? Como fica o pensamento de “sobrevivi” diante da infelicidade de uma família? É possível carregar esse fardo? É possível seguir em frente apenas pensando “nasci de novo”? É incrível a capacidade do ser humano em pensar apenas no seu umbigo e colocar a cabeça no travesseiro todas as noites e dormir em paz. Me pergunto se o Carli Filho dorme em paz, em liberdade.

Eu não dormiria, e por isso mesmo, apesar de às vezes meter o pé no meu carrinho, do qual eu conheço as limitações, diante de uma situação adversa do tempo eu não me importo em andar nos limites de velocidade ou até mesmo abaixo deles, e deixar passar os babacas com SUVs dando sinal de luz. Deles, eu não tenho pena. Eu tenho pena é de mim, que não tenho um carro com air-bag e que estou à mercê desses imprudentes a brasileira, que querem tirar vantagem até mesmo de uma ultrapassagem, sem pensar que na frente poderia estar trafegando um ente querido seu que, diante da incerteza de que decisão tomar sob a pressão das luzes brancas quase cegantes, pode acabar se enfiando embaixo de um caminhão de carga causando mais um acidente besta, pela imprudência de pessoas letradas que são quase analfabetas funcionais, só que no quesito “educação de trânsito”. Por isso, querido leitor, por favor, use a cabeça pra dirigir e não a adrenalina que a velocidade pode te proporcionar. Quer correr? Vai ser piloto de F1, kart, ou qualquer coisa que o valha.

 

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2 comentários em “Imprudência a brasileira

  1. Cara…esse eu vou comentar com muito gosto…
    Tem apenas 5 meses que cheguei em Joinville e confesso que cada dia que passa fico mais horrorizado com o trânsito que eu vejo. O problema aqui da região é: se as pessoas não sabem nem dirigir dentro da cidade, tenho muito medo de ver o que fazem nas estradas.
    Outro problema é o excesso de confiança que as estradas da região trazem para alguns motoristas. OK, as estradas de Santa Catarina não são um sonho, mas qualquer um que já tenha pego qualquer outra rodovia mais para o norte do país há de concordar comigo que está alguns anos luz na frente no quesito qualidade.
    Com relação à carros e itens de segurança, me entristece ver quais são os itens que o brasileiro mais valoriza dentro de um carro. Pior ainda é quando vemos os itens de série que uma montadora tem coragem de oferecer.
    É difícil acreditar que um veículo possa ser vendido sem batentes laterais nas portas, limpadores traseiros em veiculos que não possuam pontos de estagnação, etc etc.
    E indo um pouco mais além, o conhecimento do brasileiro acerca de seus equipamentos de segurança ainda são mais limitados ainda. Já encontrei centenas de pessoas que não sabem ao menos posicionar um cinto de segurança na região correta do tronco ou que sabem que o airbag deve ser desativado nos bancos onde trafegam IDOSOS e CRIANÇAS.
    Joinvillense tem mania de extremismo…ou anda muito rápido ou anda muito devagar. Dirigir em segurança não é somente andar devagar, é saber respeitar o limite de velocidade de uma via (e isso inclui velocidade mínima), bem como faixas de ultrapassagem.
    Entretanto, a culpa não é só dos motoristas. A culpa são das auto-escolas que formam bonecos para passarem em provas de direção ridículas.
    Completando, o planejamento de trânsito dessa cidade é simplesmente vergonhoso.

  2. Ix Leila, aqui no Rio os imbecis não ficam muito atrás não, viu?!
    Assim, eu não dirijo. Admito que tenho um ‘quase medo’ de ficar atras do volante, acho muita responsabilidade… Mas enquanto estou dentro de, por exemplo, um ônibus, vejo que o motorista se porta pior do que todo mundo que eu conheço e conduz carro de passeio. No último mês, eu presenciei 3 batidas de onibus em carros, nos quais eu estava dentro (do busão). E o pior é que, estando errado, o motorista ainda vem com uma listinha pra você assinar, pedindo pra testemunhar a favor da displicência dele. Ô povo!

    Bem, queria avisar que te linkei no Pinupismo, meu novo blog! :D
    Beijinhos e ótimo domingo

Leiloe a sua ideia :D

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